#92 - O que une e separa
O território não partilhável entre mãe e filha
O que separa - e justamente por separar, une - a mãe da filha, é a sexualidade da mulher, único território não partilhável.
— Marina Ribeiro
Imediatamente após terminar de assistir o filme A filha perdida, uma adaptação do livro de Elena Ferrante, enviei mensagem para minha mãe.
“PQP, como eu era uma criança insuportável.”
Ao que minha mãe um tanto assustada, me respondeu que eu passava longe disso, afinal, sempre fui tão boazinha e quietinha.
Parece que insuportável não se referia a criança que eu fui, mas, a própria alienação e dependência que faz parte dessa relação na primeira infância.
O filme mostra uma menina que se recusava a desgrudar da mãe, que se agarrava ao corpo dela, como se fosse mesmo uma continuação do seu.
Lembrei das inúmeras vezes que minha mãe deixava transparecer a mulher que existia ali e como isso me incomodava profundamente.
O ciúmes que sentia ao ver seu olhar direcionado para algo qualquer além de mim, fosse um livro, uma tarefa e mais ainda, um homem.
Comentei que talvez fosse isso o que queria dizer com o termo insuportável e que de alguma forma reconhecia como é difícil sustentar a função materna.
Então escutei de volta que tudo que ela mais queria era voltar à essa época, pois agora ela já até sentia falta disso.
O que mais uma vez revela a complexidade dessa relação, disso que, ao mesmo tempo, nos une e separa.
Sustentar a função materna não é apenas cuidar, acolher ou estar presente. É também suportar faltar, se ausentar, não preencher aquilo que, inevitavelmente, escapa.
É deixar aparecer a mulher que existe para além da mãe, ainda que isso produza estranhamento, incômodo ou até mesmo uma sensação de perda.
E, do lado da filha, é atravessar essa experiência assumindo a responsabilidade de criar um caminho em nome próprio, ainda que muitas partes, tenham começado a se constituir nessa relação tão primordial com a mãe.
Neste Dia das Mães, mais do que sustentar uma imagem idealizada dessa relação, talvez possamos reconhecer o que, de fato, se construiu nesse laço. E o que, desse território não partilhável, ainda resta se fazer nome próprio?
𖤓 Quem te escreve
Prazer, Camila Innecco. Mineira de Belo Horizonte, fiz de São Paulo meu lar e ponto de retorno para as andanças que invento pelo mundo. Psicanalista e psicóloga, com 10 anos de experiência profissional. Hoje me dedico ao atendimento clínico de mulheres, ao acompanhamento de psi’s em supervisões e grupos de estudo, além da criação de cursos e palestras temáticas de psicanálise & feminino.
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Você cria, da o seu melhor como mãe e qdo você escolhe viver a sua essência definindo boundaries nada disso è relevante! Uma coisa que aprendi foi, independente de filha ou qualquer outro ser, nunca deixe de viver a sua verdade, a sua essência . Não se sacrifique pra criar filhos ingratos e sem valores humanitários. Mães , pra criarem “human beings” devem se posicionar, passar valores e verdades, que nunca devem ser oprimidos . Cuidar de si pra ter condições emocionais de entregar o mais belo ! Super proteger não é a melhor saída e sim um gerador de filhos sem nenhum valor e respeito p próximo! Dar amor, impor limites, ensinar a respeitar o próximo e acima de tudo ser solidário ! A psicologia começa em casa e não no consultório de um profissional! Se o ambiente não é favorável, sem “amor e respeito” não tem como criar filhos com capacidade dos mesmos! 🌹🥹